sábado, 13 de fevereiro de 2010

A "catástrofe" de Ravensbrück


Parece mesmo que hoje era o meu dia de sorte. Impossível definir de outra forma. Não repare no título. Vou explicar o porquê. A história é um pouquinho longa.

***

Decidi ontem que iria até Ravensbrück, um campo de concentração a cerca de 100km de Berlim. Foi onde Olga Benario morreu e foi também o maior feito só para mulheres. Já dá para imaginar a minha ansiedade, não é?

Todo animado, acordei cedo e peguei o trem às 8h44, no centro da cidade. O problema já começou por aí. É que não existe, na verdade, linha direta com Ravensbrück. Tive de descer em uma estação antes e caminhar praticamente uma hora sob e sobre uma neve pesada.

A vila onde comecei essa jornada chama-se Fürstenberg. Vila não, apenas um pequeno município de pouco mais de 5 mil habitantes. De lá, segui por uma dezena de curvas, retas, muito gelo e pouca gente. O lugar estava deserto. Quando dava a sorte de encontrar alguém, o papo era até bacana, mas eu precisava continuar senão perderia a viagem de volta.

Assim foi até a entrada de Ravensbrück, tão ampla e triste como milhares de vezes imaginei. Porém, outra vez nada de gente. Só o silêncio, uma paisagem opaca, um céu cinza e a minha velha boa vontade, claro.

Caminhei por uma trilha pequena até a recepção. Depois, encontrei um homem que limpava a escadaria e pedi para entrar no museu. Vi as fotos das vítimas da loucura alemã durante a segunda guerra mundial. Procurei por Olga, mas não achei. No entanto, o nome dela consta nas listas da internet. Uma pena não ter nada em Ravensbrück.

Mas o pior ainda estava por vir. Como não havia ninguém para me ajudar na visita ás casas onde as mulheres dormiam e trabalhavam, fui sozinho. Sozinho mesmo! Só que a surpresa veio antes mesmo do passeio começar. Os meus pés afundaram de uma vez pelo menos uns 50 centímetros. Pensei em voltar, porém, continuei. Apressei o passo.

Enquanto me aproximava do primeiro barracão, uma placa de todo tamanho indicou que a entrada era proibida. Soube ali, então, que no inverno os campos de concentração não ficam abertos ao público. Depois, uma outra mulher me contou que é por falta do Heizung (aquecedor).

Enfim, a questão é que aí eu percebi uma catástrofe. Minha câmera fotográfica com todas as imagens e vídeos de Berlim tinha caído na neve. Sinceramente, não consigo descrever o meu desespero. Ía de um lado para o outro e não sabia a quem pedir ajuda. Aliás, não tinha viva alma por perto. Só eu, no meio de um campo de gelo e sem ter a menor idéia do que faria.

Bom, fato é que, após correr e ter o joelho afundado num "freezer", encontrei o que havia perdido. Para mim, foi um milagre, literalmente. Meu dia ali, à princípio, tinha acabado. Mas não.


A guerra e as bodas de ouro

Chamei um táxi porque estava muito cansado e cheguei à estação para voltar à Berlim. Foi então que um casal muito simpático se aproximou e perguntou de onde eu era. Disse "Brasil" e os dois caíram na gargalhada. Adoraram a notícia e começaram a me contar o porquê.

Friederich e Elizabeth Lessmann se casaram em 1958 e foram no mesmo ano para Brasil em uma missão de cooperação no Rio Grande do Sul. Lá tiveram três filhos e seis anos depois retornaram à Alemanha. Mas essa não é a melhor parte. A melhor parte é que o pai dela foi soldado e trabalhou para Hitler, infelizmente.

A senhora fez questão de se sentar perto de mim no trem e me contou uma longa e bonita história de amor e resistência.

Ela viveu a segunda guerra mundial e o marido também. Escutaram os canhões. Ambos tiveram que fugir do país porque o Terceiro Reich havia prometido vitória, mas não conseguiu. Segundo os Lessmann, quase todos os dias um megafone com a voz de Hitler passava pelas ruas dizendo que a nova potência do mundo seria germânica. Uma mentira que, nos anos de 1940, seria descoberta.

No entanto, essa mentira fez a família de Friederich andar uma semana até um país vizinho em busca de abrigo. E também fez a família de Elizabeth correr de porta em porta pedindo ajuda a amigos para fugir do país.

Bom, os dois foram simplesmente muito simpáticos e estão juntos há cinco décadas. Fizeram questão de me mostrar os anéis das bodas de ouro como uma relíquia de sobrevivência ao confronto, embora fossem crianças no tempo do Nazismo.

Não vou escrever mais porque quero ajeitar as idéias e fazer algo à altura do que me foi dito. Mas dá para ter uma noção de que, no final das contas, o dia não foi tão ruim.

6 comentários:

  1. Nossa, Maurício, bacana demais, viu? Gostei!

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  2. Maurício, Olga estava em Ravensbrück! Com certeza ela te ajudou a encontrar a sua máquina! Deve ter sido o modo que ela encontrou pra te agradecer pela visita e pelo carinho com sua memória!

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  3. Nossa! Que sensibilidade a sua, hein Harley? Lindo lindo. Concordo em gênero, número e grau. Olga estava por perto.

    Quanto à história... minha nossa! Tudo de bom. Sua forma poética de narrar as peripécias cotidianas é envolvente. Estou já curiosa para ver o resultado dessa viagem dos sonhos em um belo livro-reportagem. Está cotadíssimo pra ser o melhor TCC dos últimos tempos, hein? Sucesso!

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  4. Que emocionante história!
    Acabei de assistir o refúgio secreto, estava procurando coisas sobre ravensbrück e acabei achando seu blog,muito interessante por sinal.
    Parabéns pela matéria!

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  5. Poxa Karen, mtíssimo obrigado!!! Estou meio atrasado no agradecimento, mas paciência... rsrs...

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