domingo, 20 de janeiro de 2013

A reportagem no exterior

Jornalista precisa confessar, pelo menos quando vai dormir, que o exercício da profissão requer humanidade. Não importa onde, nem quando.

Não estou falando de ficar com "dozinha" de ninguém. Estou falando de alcançar o outro sem ofender (necessariamente), sem criar clima de "quero uma resposta e você precisa me dar porque fui muito inteligente ao descobrir 'sei-lá-o-quê'". Bobagem. As pessoas não são idiotas e jornalismo não é brilhante porque ofende ou ironiza. O jornalismo brilhante, pra mim, é o que informa.

O "estrangeiro"

Abri parênteses porque a experiência no exterior tem me deixado convencido de que o caminho pra conseguir o que se quer, longe da "zona de conforto" dos parceiros do interior, é admitir que se está no marco zero! Sim, aqui na Deutsche Welle voltei ao marco zero da profissão. Não tenho contatos, não tenho amigos, não tenho o básico pra uma matéria: informação. E aí?

E aí que na minha primeira semana sugeri uma reportagem sobre a queda no número de adoções internacionais por conta do arrocho das leis brasileirras. Sugeri ainda sem a consciência de que não sabia o que fazer pra escrever. Mas a ideia veio de uma conversa com uma amiga e me senti na obrigação de abri-la com meus novos colegas de trabalho. Eles gostaram. Com uma ressalva: "Maurício, nunca tratamos desse assunto aqui. Você vai ter de correr atrás".

O primeiro passo

"Correr atrás"... "correr atrás"...

No mesmo dia entrei na página do governo brasileiro. Os dados estavam lá. Atualizados. A minha suposição não era suposição. Era um fato. Não só os europeus não adotam mais no Brasil com tanta frequência, como a maior parte dos países da zona do Euro e também dos Estados Unidos desistiram de nós. Por quê?

Fiz a pergunta para o pessoal de Brasília e me disseram que as mudanças na legislação interferiram nas estatísticas. Mandei o mesmo questionamento para o Escritório Federal de Adoção na Alemanha e a resposta foi a mesma: "o Brasil prefere que as crianças fiquem no país delas e apenas colocam para adoção meninos e meninas acima de dois anos de idade". Os alemães e seus vizinhos preferem bebês.

Excelente, não? A reportagem estava quase saindo...

Quase saindo? Não... Não estava. Ainda precisava de um especialista que me informasse sobre as alterações da lei e algum casal estrangeiro que tivesse adotado pra me contar como foi tudo, o motivo de ir tão longe...

Bom, especialista consegui sem tantos transtornos, já o casal...

O personagem

Com relação ao casal, eu dependia da justiça brasileira me passar telefones, emails, etc. Eis o problema. Os processos ficam sob segredo. Ninguém se atreve a falar (claro). Tentei na Vara da Infância e Juventude, no Centro de Educação de Jovens e Adultos (CEJA), no Conselho Tutelar. Liguei pra tudo que é canto e nada!

Então eu soube, durante a apuração, que agora o Brasil exige que os países interessados se apresentem para início da adoção como pessoa jurídica, ou seja, com o nome de uma entidade local, lá da terra deles (um abrigo, uma casa de apoio, por exemplo). O governo me passou essa lista de associações. O conteúdo é público.

Disparei email pra inúmeros lugares e recebi respostas questionando o tema, o meu interesse. Apenas um italiano resolveu me ajudar. Um! E aqui gostaria de registrar que foi o grande momento.

...

Trocamos emails por praticamente uma semana. Ele não confiou em mim de primeira. O medo era de que o meu objetivo fosse expor os casais, as crianças e criticar a adoção internacional. Quem sou eu pra fazer uma coisa dessas?

Com muita conversa, um pouco de sensibilidade e paciência, chegamos à conclusão de que o importante seria contar uma boa história. E ela será contada, se Deus quiser. Vou entrevistar dois italianos que adotaram dois gêmeos no estado do Mato Grosso do Sul, em julho de 2010, e aos 12 anos de idade!

O resultado

Aqui retorno ao que disse no primeiro parágrafo do post. É preciso entender o tempo dos outros, a realidade que não se mostra, até a palavra que não é dita. A confiança que depositam na gente é resultado da nossa humanidade também. E aqui, do outro lado do mundo, cada passo, mesmo pequeno, significa um avanço enorme.

Estou realizado como profissional e vou ficar mais ainda quando a reportagem for publicada. Aguardem!


2 comentários:

  1. Eu adorei... Imagino como seja complicado. Abraço

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  2. Nossa... é complicado sim, viu... o caminho é bem mais torto... rs...

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